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quinta-feira, 6 de agosto de 2020

O Benfica caminhou sozinho

Ser um jovem benfiquista nos dias que correm vem com uma pesada herança, para benfiquistas que nasceram durante ou depois da década de 80 não há memórias de um Benfica vencedor na Europa. Dizem-nos que não sabemos como era o Inferno da Luz das grandes noites europeias, que não conhecemos a raça e querer das grandes equipas dos anos 60, dos invencíveis da década de 70 ou dos grandes Presidentes que fizeram o clube grande, nacional e internacionalmente. Na verdade, nós jovens adultos só conhecemos o futebol da era Pinto da Costa, o futebol dos anos anos 90 em que se viram os maiores barbarismos que há memória ou dos anos 2000 onde ficámos a conhecer o Apito Dourado, os Pedros Proenças, Jorge Sousas e Artur Soares Dias destas vidas.

A primeira memória que tenho enquanto benfiquista, e não me refiro a jogos que posteriormente vi, é da eliminatória com o Parma em 1994. Depois houve o trauma de Vigo e finalmente o surgir da Luz ao fundo do túnel com a vitória sobre o Porto de Mourinho na final da Taça de Portugal em 2004. Essa vitória e consequente vitória no campeonato seguinte em 2005 foram o virar duma página negra do futebol do Benfica que durou sensivelmente 10 anos. Os 5 anos seguintes foram duros mas começava-se a ver algo diferente, já não eram só equipas medíocres com um ou outro jogador de qualidade. Com a chegada de JJ o chip mudou e o Benfica começou a lutar de igual para igual sendo que nos últimos 10 anos venceu mais troféus nacionais que Sporting e Porto combinados.

Ser jovem benfiquista é muito mais difícil do que ser um benfiquista experiente de décadas de vitórias. Ser jovem benfiquista é durante duas décadas só conhecer a derrota e mesmo assim ser benfiquista. É na prática ser como os sportinguistas são a vida toda.

Não sou nem serei daqueles que compara gerações. Arranjar melhores de sempre é absurdo. Comparar futebol dos anos 70 a futebol dos anos de 2010 é uma idiotice. Comparar Ronaldo a Eusébio é uma arbitrariedade. Comparar gastos anuais de equipas de 2010 com equipas de 2020 é demagogia. No entanto, há uma coisa que se mantém idêntica: a paixão do adepto. E a paixão do adepto é por definição irracional. Se hoje se fala dos adeptos mansos que dizer daquelas assistências contra o Riopele, o Amora, o Feirense ou o Ginásio de Alcobaça. Se hoje falamos em adeptos exigentes que dizer do terceiro anel a chamar nomes a Nené ou Jordão. Não precisamos ter visto os jogos em directo para saber de como eram as coisas. Há muitos vídeos e relatos para dar e vender.

Essa irracionalidade de adepto choca com algo novo no futebol mundial, que é a profissionalização da gestão de um clube de futebol. Hoje, os clubes de futebol, ou as SAD, têm de ser geridas como empresas e têm de ser geridas racionalmente e não irracionalmente. Os adeptos mantém-se irracionais por definição achando que basta amar o clube para saber o que é bom para ele. Todos são jogadores, treinadores e Presidentes. Infelizmente, as derrotas do clube esta época, a boa situação financeira do mesmo e o cada vez mais tóxico ambiente do futebol em Portugal, fruto das vitórias do Benfica diga-se, fez com que uma grande parte dos adeptos do Benfica deixassem de ser isso mesmo, adeptos.

Quarta-feira, 8 de Março de 2006, Moretto, Anderson, Luisão, Alcides, Leo, Beto, Manuel Fernandes, Laurent Robert, Geovanni, Nuno Gomes e Simão entram em Anfield com 5 pontos de atraso sobre o Porto na luta pelo título, já tinham feito os 4 clássicos da época e estavam longe de depender de si próprios para revalidarem o título que era deles. Venceram o campeão europeu em título por 0-2 numa daquelas noites europeias que nós jovens benfiquistas não sabemos o que são, tendo nesse mesmo ano eliminado na fase de grupos o Manchester United. Nessa tarde/noite, o jogo acabou com os adeptos do Liverpool a aplaudirem os jogadores do Benfica e a cantarem “You’ll never walk alone” para a sua equipa. Campeões europeus em título eliminados nos quartos de final pelo Moretto, Alcides, Beto e companhia e terminam o jogo aplaudidos.

Passam-se 3153 dias. Domingo, 25 de Outubro de 2015, Estádio do Sport Lisboa e Benfica. Depois de JJ sair do Benfica para o Sporting e da época ter começado com uma derrota na Supertaça para esse mesmo Sporting, o Benfica chega aos 36 minutos de jogo em casa com o eterno rival a perder 0-3. Aquilo que se viu depois disso por parte dos adeptos fez-me lembrar essa noite 3153 dias antes, o amor incondicional ao clube, estar com ele na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando, respeitando e sendo fiel em todos os dias das suas vida, até que a morte os separe. Os aplausos, o apoio incondicional e a devoção ao clube e aos profissionais que ali estavam, que terminando aquele jogo passariam a estar a 7 pontos do Sporting foi fundamental no percurso de um tricampeonato que fugia ao Benfica desde 1977, ou seja há 39 anos.

Os jovens benfiquistas viam finalmente o Benfica ser tricampeão. E passado um ano viam o Benfica fazer algo inédito na sua História. Ser tetracampeão. E tudo graças aos adeptos. Aqueles que aplaudiram a 25 de Outubro do ano 2015.

Se hoje o Benfica não é bicampeão é também graças aos adeptos. Não podemos querer os louros das vitórias e não arcar com as consequências dos nossos actos nas derrotas. O Benfica hoje não é campeão porque a 7 de Fevereiro de 2020 tendo 18 vitórias em 19 jogos para o campeonato os profissionais do clube eram assobiados em pleno Estádio da Luz ao fim de 10 minutos de jogo. O Benfica não é campeão neste momento porque a 4 de Junho de 2020 depois de uma paragem verdadeiramente caótica e atípica e estando o Benfica em igualdade pontual com o Porto, os profissionais do clube viram o autocarro onde iam ser apedrejado, as suas casas vandalizadas e a suas famílias ameaçadas. Enquanto apontamos o dedo aos Senhores do Norte devido aos métodos utilizados para atingir os seus fins, nós fazemos o mesmo mas a nós próprios. E no final culpamos o Vieira, o Domingos Soares de Oliveira, o Bruno Lage, o Rui Costa, o Pizzi, o André Almeida, o Ferro ou o Nuno Tavares.

O clube não tem de fazer uma contratação sonante, um jogo fantástico ou uma passagem de eliminatória memorável para os adeptos o apoiarem. Os adeptos têm de ser isso mesmo, adeptos. Na alegria e na tristeza. O Benfica estará muito mais próximo de ser novamente campeão quando os adeptos forem aquilo que os do Liverpool foram em 2006 ou os benfiquistas foram na Luz em 2015. Enquanto não perceberem isso, podem continuar a culpar o Manel.


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